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Economia: Preço dispara e iogurte vira luxo no café da manhã

Postado em: 22/07/2015 10:42:00
Fernando Mellis/R7

Quem frequenta o supermercado já sentiu no bolso a escalada dos preços, em geral, neste ano. A cada compra, menos itens e mais gastos. É aí que entra a velha estratégia de diminuir a lista e cortar alimentos considerados supérfluos.

Entre esses alimentos, um produto que representou a ascensão da classe C (com renda familiar entre R$ 3.152 e R$ 7.880) está desaparecendo do carrinho do brasileiro: o iogurte, cujo preço já subiu 8,21% nos últimos 12 meses.

O aumento representa praticamente a disparada da inflação oficial no mesmo período, que ficou em 8,89%. O presidente do Corecon-ES (Conselho Regional de Economia do Espírito Santo), Eduardo Reis Araújo, explica a razão desse simbolismo do iogurte.

— A alta do consumo de iogurte desde 1994 era atribuída, na época, como uma das conquistas da classe média, decorrente da estabilidade econômica, da melhoria da renda que as pessoas passaram a ter. Até então, ele era visto como um produto de luxo para essas pessoas, assim como sorvete, porque era inacessível.

Um levantamento feito pelo Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento), há dois anos, atribuía ao aumento de renda dos brasileiros um crescimento anual de 2,97%, em média, do consumo de iogurte. Outro fator que contribuiu foi o acesso de grande parcela da população aos eletrodomésticos da linha branca.

Mas aí surgiu a crise na economia, com a escalada da inflação e do desemprego. Foi o suficiente para fazer muita gente colocar o pé no freio. Na gôndola de frios de um supermercado na zona norte de São Paulo, a comerciante Tânia Oliveira observa os preços um a um, tentando achar algum iogurte que agrade ao paladar e ao bolso.

— Não é fácil. Eu sempre comprava, mas, ultimamente, quando aqueles que eu gosto não estão com um preço bom, sou obrigada a ficar sem. Tudo está mais caro, aí o iogurte acaba sendo o supérfluo. Agora mesmo, acabei de lembrar que tenho que pegar outras coisas mais importantes.

Consumo em baixa

A atitude de Tânia já se reflete nas recentes pesquisas da consultoria Nielsen, que analisa cerca de 130 produtos vendidos nos supermercados. De dezembro de 2014 a março de 2015, as vendas de iogurte cresceram apenas 0,2%, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Porém, o iogurte teve crescimento de 6% no primeiro trimestre de 2014 em relação ao mesmo período de 2013. Ou seja, a desaceleração foi de 5,8 pontos percentuais. O analista de mercado da Nielsen André Sanches diz que o ritmo de vendas deve continuar baixo em 2015, porém, não somente dos iogurtes.

— Na nossa cesta de perecíveis, por exemplo, iogurte foi uma das categorias que teve maior variação de preço. Então, isso acaba contribuindo para a desaceleração do consumo. Mas essa desaceleração acontece também em outros produtos que a gente analisa e reflete um pouco o cenário econômico atual.

Somente neste ano, o preço de iogurtes e bebidas lácteas subiu 5,34%, de acordo com dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O gerente do departamento de economia e pesquisa da Apas (Associação Paulista de Supermercados), Rodrigo Mariano, acrescenta que isso já pode ser o suficiente para esses produtos ficarem de escanteio.

— O iogurte já havia sido incorporado como um item de cesta básica e, no momento em que o consumidor tem essa perda do poder de compra, ele vai fazer escolhas dentro da cesta básica. Por uma questão que, talvez, seja de preço é que o iogurte tem ficado de fora.

Sorvete

A inflação também atingiu outro produto que passou a ser bastante consumido pela classe C: o sorvete. Os preços subiram 10,24% neste ano, segundo o IBGE. Mesmo durante o verão, as vendas caíram 9% (entre dezembro de 2014 e março de 2015, em comparação com o mesmo período do ano anterior), de acordo com dados da Nielsen.

No verão 2013/2014, as vendas de sorvete subiram 35,3%. Sanchez avalia que, além do preço, outro fator contribuiu para a queda neste ano.

— Foi uma categoria de produtos que se destacou bastante no ano passado [entre 2013 e 2014], muito em função do calor, do verão intenso que tivemos. Mas isso não está acontecendo este ano. Não tivemos um verão tão intenso e o volume de vendas do período anterior já havia sido alto, por isso [houve] uma queda mais acentuada.

Produtos “premium”

Mais de 30 milhões de brasileiros passaram a fazer parte da classe C nos últimos anos. Esse aumento do poder de compra fez com que surgissem também consumidores mais exigentes e dispostos a pagar mais para adquirir os mesmos produtos das classes A e B.

São diversos itens, como papel higiênico de folha dupla e cervejas importadas. Apesar da crise, tem uma parcela da nova classe C que não se desfaz dessas conquistas, diz Rodrigo Mariano, da Apas.

— O consumidor começa a fazer escolhas. Tem alguns itens de que ele não abre mão, por já ter atingido um nível de consumo que o faz cortar itens básicos para não deixar de comprar a cerveja premium, por exemplo.

Segundo o analista de mercado da Nielsen, é justamente o iogurte grego, considerado “premium”, que vem aumentando a fatia de mercado entre os demais. Mas isso ainda não é suficiente para conter a desaceleração das vendas do produto.

Fonte: R7